HISTORIAL

BREVE HISTÓRIA
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TOPONÍMIA

HISTÓRIA DO BRAZÃO
OLÍVIA
CULTURA AVIEIRA
TEJO
HISTÓRIA ACTUAL


TEJO


Procura-se traçar em breves palavras a história da utilização do rio Tejo como  via de comunicação, importante meio de trabalho, é traço de união entre as diversas povoações e suas gen­tes no Concelho de Vila Franca de Xira e zonas limítrofes.

NAVEGABILIDADE

A possibilidade de comunicação ao longo dos rios pressupõe, como é elementar, a sua navegabilidade.

Como sabemos, o território de Portugal Continental é atravessado por diversos rios, sendo significativo b total de troços navegáveis que na época medieval serviam já um importante tráfego fluvial.

Os rios navegáveis constituíram um facto de desenvolvimento e determinaram a localização de diversos aglomerados, permitindo ao longo de vários séculos a ligação entre o litoral e o interior do País e o consequente alargamento do mercado interno.

Ainda no século passado a comunicação com o interior resumia­-se à utilização dos rios navegáveis e onde estes não pudessem chegar, o papel do transporte cabia aos almocreves, que através de caminhos e veredas conduziam animais carregados com diversas mercadorias estabelecendo, assim, o contacto com as regiões mais isoladas. 

Dos rios navegáveis ocupa lugar de primazia a "estrada aquosa" do Tejo, o rio mais extenso e navegável e artéria central da Península Ibérica cuja navegação existiu muito antes da nacionalidade portuguesa.

Há mais de dois mil anos Estrabão na sua "Geografia" dizia que "O Tejo ( ... ) pode ser remontado por grandes navios de transporte; Como ao inundar as terras vizinhas na praia mar se formam esteiras com o comprimento de 150 estádios, toda esta parte plana se acha aberta à navegação (...)" . No século XIII com a conquista definitiva do Algarve, o rio Tejo aumentou a sua importância como eixo de comuni­cação, acentuado pelo facto de Lisboa ser a capital do reino. O cres­cimento da cidade andou a par com o incremento da navegação ao longo do rio.

Apesar da sua longa extensão, o tráfego fluvial mais intenso no Te­jo  cingia-se apenas à ligação entre Lisboa e Abrantes, sendo limitadas as possibilidades daí para cima durante o Verão e nem mesmo em Abrantes era possível circulação de barcos de grande tonelagem. Por isso muitos produtos como a madeira e a cortiça eram transportados em jangadas até parte do curso do rio, nomeadamente Valada ou Salvaterra onde então passavam para barcos e seguiam até Lisboa.

 No século XVI são feitas algumas obras no rio como o cais de Tancos. N o final deste Século, durante o período de ocupação espanhola foram construídos sirgadouros de alvenaria nos pontos mais difíceis do curso tornando assim mais fácil a ligação entre Portugal em Espanha através do rio Tejo. Foi por essa via que foram transportados os mármores de Estremoz para  construção do Escorial junto a Madrid.

Nos séculos seguintes o estudo do rio e da sua navegabilidade conti­nuou a ocupar os Espanhóis. Mantinha-se o tráfego fluvial ao longo do rio. Muitos barcos iam até Alcântara buscar minério para Lisboa.

Em 1829 foi assinado um tratado em Lisboa que legalizou o projecto de navegação o vapor entre Lisboa e Aranjuez.

Para além destes aspectos gerais há a salientar no nosso Concelho, em paralelo com a grande via do Tejo, a ribeira de Alverca que devia, também, ser navegável embora decerto em pequena extensão por­que um documento de 1355 se refere aos vinhos que "carregarem em a ribeira de Alverca" e os esteiros dos arredores de Lisboa, que eram utilizados para o transporte de mercadorias já ,untes do século XV.

A própria navegação no rio Tejo não se limitou ao seu leito. Foi muito importante a navegação do estuário entre os portos da "outra banda" e os portos do nosso Concelho. Era de lá que vinha a lenha para as padarias de Vila Franca e para os telhais de Alhandra. De realçar também a ligação entre as margens (Vila Franca - Cabo), ligação não só das gentes mas também dos produtos, nomeadamente os da Lezíria,

TRÁFEGO COMERCIAL DE PASSAGEIROS

Desde meados do século XIII progrediu sensivelmente, o comércio, exercido tanto pelos próprios produtores como nos mercadores.

Tem-se notícia da existência naquele século e no seguinte de relações comerciais de Santarém com Flandres, França e Norte de África.

Para além das relações com o exterior a destacar pela sua dominância o intenso tráfego entre a capital e as povoações das margens do rio.

No século XV eram sal, peixe e tecidos que subiam o Tejo, desde Lisboa até Abrantes.

Para a capital transportavam-se madeiras e lenha, azeite, trigo, vinho, mel, melão e outros produtos. Era a via pela qual chegava a Lisboa a grande parte dos seus abastecimentos.

Em 1552, João Brandão de Buarcos descrevia em " Estatísticas de Lisboa " a frequência e intensidade das comunicações fluviais no baixo Tejo, incluindo o Concelho de Vila Franca de Xira.

PORTOS DO TEJO

Os cais mais importantes da região eram os de Povos, Vila Franca, Alhandra, Alverca, Póvoa e Vala do Carregado.

A intensidade de tráfego está bem patente na necessidade de regulamentação que a respeito do cais de Vila Franca, é feita no foral quinhentista desta vila.

Destaca-se até ao terramoto de 1755, o porto de povos que servia então aquela importante vila. Desde então coube a Vila Franca a par com Alhandra a dianteira no movimento comercial e de passageiros da região.

A vila de Alverca era servida pelo porto de Adarce um dos primeiros núcleos da zona - que teve movimento importante até ao século XVIII.

O porto da Vala do Carregado que servia de via de penetração paro a zona de Castanheira e Alenquer registou assinalável movimento até meados do nosso século, sendo ainda hoje visíveis vestígios de im­portante entreposto comercial (vinhos e frutas).

BARCOS E ESTALEIROS

Os barcos de transporte mais utilizados no rio Tejo foram a fragata, o catraio e o iate para carga, o barco do Ribatejo e o batel de água acima para o transporte de provisões e falua para o transporte de passageiros e a barca de passagem para a ligação entre as margens.

Saliente-se que o iate de carga tinha como destino o Algarve, transportando cimento de Alhandra e sacos de adubo do Barreiro.

Em 1821, foram introduzidas as primeiras carreiras regulares de passageiros em barcos a vapor. Pretendia-se então estabelecer a ligação entre as duas margens do Tejo e ainda Lisboa a Porto.

Todavia o barco a vapor acabou por se limitar ao estuário do Tejo devido à sua incapacidade de enfrentar a ondulação atlântica.

Em 1843 é de vapor que Almeida Garrett vai de Lisboa a Vila Nova da Rainha ao iniciar as "Viagens na minha terra " :

" ( ... ) Também são chegados os outros companheiros. O sino dá o último rebate. Partimos.

Numa regata de vapores, o nosso barco não ganhava decerto o pré­mio. (...) È um barco  sério e sisudo que não se mete nessas andanças.

No século seguinte apareceram os gasolinas para a ligação entre as margens.

A maioria destes barcos foi construída em estaleiros da Costa Nor­te ou da margem Sul do Tejo (Aveiro, Abrantes, Alcochete, Samouco e SeixaI). Mesmo assim existiram vários estaleiros no nosso Concelho, em Alhandra, Alverca, Vila Franca de Xira e Povos.

Destes dois últimos sabemos que, pelo menos, remontam a tempos medievais.  

Foi já que em 1847, D. João II mandou organizar uma esquadra que foi dar batalha aos aduares em África.

"(...) E neste mesmo ano de 1487, no mês de Agosto, mandou el-rei fazer uma armada junto de Povos e Vila Franca, porque morriam em Lisboa, então de peste. A qual era de trinta navios (...).

DECADÊNCIA DA NAVEGAÇÃO FLUVIAL

Com o fluir dos tempos verificou-se uma profunda evolução dos conhecimentos científicos e técnicos que permitiram um grande desenvolvimento das forças produtivas, nomeadamente dos meios de trabalho

Os transportes, parte integrante das forças produtivas não ficaram alheios a tais mudanças.

Em 30 de Outubro de 1856, Vila Franca de Xira ficou ligada à capi­tal por meio da linha férrea. Com o aparecimento do comboio foi parcialmente destroçada a velha navegação fluvial.

Os almocreves também sofreram a concorrência deste rápido meio de transpor.

No entanto vão sobreviver até aos anos 20 deste sécu­lo, início da era das estradas e da camionagem, pois o caminho de ferro, não chegava a todo o lado.

Foi a camionagem que acabou por destruir completamente os trans­portes fluviais ao longo do Tejo. O pouco que ainda resta à navegação de estuário, limitando-se à zona de marés­

A ligação por barco entre  as margens do Tejo na zona de Vila Franca de Xira perdurou  mais algum tempo, precisamente até à inauguração em 1951 da ponte sobre o rio entre Vila Franca e o Cabo.

O TEJO FONTE DE TRABALHO


CHEIAS

Quando o Tejo transborda, a Lezíria é um charco da cor do aço, no qual, de onda em onda, emergem vultos de cores sombrias. "0 rio faz-se ao mar ", mar que engole aposentos, enovela árvores, sorve plantações animais e gente, desmorona cais.           

"Turvo, redemoinhando nas árvores dos malagueiros e mouchões; o Tejo arrasta sementeiras, animais mortos, madeiras de pontões e de barcos, maldições e rezas ".

è medonho. " E a cor do meio é parda e depois, negra ".

A Gazeta de Lisboa deixou avultadas notícias sobre enchentes do   Tejo no último quartel de setecentos.

Grandes temporais então se abateram sobre o Ribatejo, chuvas co­piosas empolado o rio, arruinando não só todas as culturas como as alguns ribeirinhos, que foram a pique com pessoas e mercadorias.

A ilustração Portuguesa de finais do século XIX e princípios do seguinte é igualmente pródiga em reportagens dramáticas, amplamente documentadas, de grandes cheias em toda a Borda-d'água. Aliás toda a imprensa do século XIX é magnânima em noticiar as inundações do grande rio. O Jornal do Comércio de 18 de Janeiro de 1856, alude a algumas  das mais memoráveis cheias de até então houvera noticia, consequência de uma invernia de quatro meses ruinosos, com 63 dias de ininterruptas chuvas, acompanhadas de marés vivas representadas por rijissimos ventos.

Meses depois, de novo "se abriram as cataratas do firmamento e os ares se desfizeram em água. A sementeira que timidamente se fora fazendo nas terras empapadas e mal  preparadas jazia de baixo das águas do Tejo que cobriam todo o campo; a Lezíria estava entu­lhada de areia, o rio perdera o leito, assoreado ele também pelas 1lamas que escorriam dos cerros revolvidos pelas enxurradas. E as águas, encontrando nos mouchões formados no álveo do rio um obstáculo á sua corrente, abriram centenares de bocas devastando tudo na sua passagem.

E o recuado articulista de há mais de um século conclui reclamando o desentupimento do Tejo e a orientação do escoamento da corrente, bem mais gloriosa obra que o ineficaz analgésico da distribuição de esmolas pelas vítimas. Debalde considerava também o reforço dos o tapadões que continuariam sem resistência, para opor ao Ímpeto das enxurradas no estado calamitoso em que se encontrava a grande via liquída.

A este respeito, já Estêvão Dias Cabral, nas Memórias sobre os Da­nos Causados pelo Tejo nas Suas ribanceiras, - ele que linha elabo­rado, em 1784, um minucioso mapa do rio, desde Tancos até Vila Franca de Xira - enunciara também alguns principios defensivos, privilegiando a abertura de o mais valas e considerando que "a história ou trabalho dos valados é mais moda do que necessidade"

Mas eis que a chuva pára e os valados abrem as gaivotas necessárias à passagem da bravia corrente. È ainda o Tejo o dono de toda a planí­cie, desde a Ponta da Erva até à Boca, do Vau, e desde Abrantes até ao Oceano.

No dorso das desvairadas águas, afora um outro, cocuruto de salgueiro ou choupo e um telhado aqui e outro mais além, só as  bicas aguçadas dos barcos avieiros.­

            "Só os avieiros, porfiaim. Eles precisam de ficar, porque não

            conhecem outro sítio paia viver."

            Todos os outros barcos amodorrentam pelo cais, logo que a chuva

            engrossa e a estrada aquosa entumesce

            "No cais, mastros despidos de velas, os barcos dormitam. O rio

está deserto."

CAMPO

No caminho e descaminho das suas enchentes, o Tejo ora leva ora repõe areias e outros detritos roubados no seu perpétuo viajar.

"Quando o Tejo passa, algo acontece sempre, porque um rio tem as suas glórias e os seus dramas, corno os homens.

O nateiro que, escoada a água fica empossado nas terras, alimentará os trigais que crescerão e o .gado que engordará.

E o milagre repete-se. É a transformação dos efeitos nocivos das cheias do Nilo lusitano, à  vez flagelo e maré.

O rio constitui um poderoso elemento fertilizante de milhares de jeiras de terra, enriquecida após a catãstrofe.

A Lezíria toda - homens, árvores e bichos vive novamente do Tejo, depois daquela sementeira de morte. Até as máquinas param, se a faixa líquida estreita;

"Ia já  para três dias que o tractor parára e a regadeira  não via pinga de água trasfegada do Tejo.

É Vila Franca de Xira banhada pelas "cristalinas correntes do aurí­fero Tejo, que o faz abundante, de peixe e fertiliza seus campos de trigo, cevada, milho e legumes, produzindo fermosos ginetes e grande número de éguas infantis que se criam nestas lizíras das quais se usa em toda a lavoura".

A irrigação de toda a grande ilha chamada Lezírias de Vila Franca é feita através das valas, é conseguida por um sistema de comportas das levadas, chamadas hoje portas-d'água e que Estêvão Cabral deno­minava por portas de maré, as quais são manual ou mecânicamen­te accionadas por empregados expressamente destinados a essa tarefa, que executam depois de terem conhecido o grau de salinidade da levada do abençoado líquido.

GAIBÉUS E MALTESES

CARAMELES E PÉGACHAS

Aos terreanos gentios - Rabesanos, no dizer dos nómadas - nem um só grão de terra pertence, em toda a lonjura daquele prado chão. Tudo - lodaçais da beira-água, vinhedos e chaparrais dalém dos montes, pastagens, restolhos e poisios, lusidias manadas de múltiplas cabeças e até os braços sedentos de trabalho dos farroupilhos aviltados tudo está em mãos invísiveis e poderosas como a da Senhora Companhia.

O pessoal jornaleiro deuteragonista recrutavam-no os patrões à se­gunda-feira, nas "praças do trabalhador" para as grandes sa­fras, vinham de fora, ranchadas de trabalhadores mais ou menos submissos, que a miséria encurralava..

Do Alto Ribatejo e da Beira Baixa eles descem às Lezírias para mondar e ceifar. Gaibéus lhes chamam.

Mútuos ressentimentos separavam uns e outros. Queixavam-se os da terra de que os forasteiros lhes vinham embaratecer os pulsos:

"Se não fossem eles, mais braços da Borda-d'Água encontrariam trabalho na Lezíria. Os patrões querem pessoal que não tenha Domingos e se alimente de jornas baixas.

            Por isso, as mondas e ceifas são feitas por gaibéus e caramelos.

E os rabezanos procuram nas fábricas e nas descargas do cais o que o campo não lhes dá agora. "           

            E a afronta estala:

"O que é um Gaibéu ? (...) Quem sabe donde vem e para onde vai   um    gaibéu ?"

Mas o labéu mais trágico em toda a Estremadura - Ribatejo foi o, de maltês. Descalços, andrajosos, famélicos, chegavam de zonas pobres e expressamente se mercadejavam nas praças de malteses.

"Este maltês é chegado,   

Embrulhado numa manta,

Deixou o fato empenhado,

N as lojas de Vila Franca.

Provinham os, Caramelos ou Carmelos do Baixo Mondego e igual­mente encorpavam multidões de camponeses que, em certas épocas, se deslocavam para a região tejana ou sadina, de economia parelha à sua, e de iguais planos pantanosos.

No tempo actual, são as Pégachas, mulheres que vêm do Pego. Na zona abrantina, e alguns Avieiros, quem engrossa a fiadas de ru­rais que se perfilam na B3orda-d'Água, em tarefas menos árduas que as dos longínquos assalariados do campo.

Dentre muitos outros, aqui se evocam especialmente os desapareci­dos semeador. Mondadeira de arroz, ceifeiro, valador. Deles, desfigurado embora, persiste somente o maioral.

Semear a lanço. Eis um gesto humano, com o papel divino da multi­dão dos pães.

Saias puxadas acima, em talhe calças, e seguras com cinta, ca­nos nos pernas, descalças, manguitos nos braços e grandes chapéus de palha na cabeça, por sobre o lenço  soqueixado, afundavam-se as mulheres no lodaçal do canteiro, arancando e replantando arroz, mondando-o, ceifando-o, depois, de terem esboroado os cambalhões da terra e moldado. os muros.     

Formigavam-lhes as pernas, gretavam-lhes as mãos, ferroadas umas e outras pelos insectos e aracnidios raivosos ou pelas ervas mais espinhosas.         

O protocolo da arte de ceifar quaIquer seara  ensina-o Redol no seguinte texto:    

"Agarra uns tantos pés de trigo com a mão esquerda, fá-los pender para ti,  a .foice não muito, agora move a foice com gana sem dar pancada, assim mesmo, e não te importes que o pulso se abra e o braço todo pareça uma linha de dor que te vá arrancar o ombro, porque, entretanto, quase sem tu saberes como, já está uma paveia ao teu lado, e outra e outra - toda a resteva estarájuncada de paveias que tu e os teus camaradas ceifaram."

Valadores enroupados nas suas capas e grevas de pano oleado, com a pá afeiçoada a fender a lama e a sustentá-la até ser atirada para cima do vaIado. Os valadores eram sempre homens da terra, porque aquela tarefa não era paulquer um. Em tempos, existiu na Castanheira uma industria artesanal de pás de vaIar.

Os valadores da Lezíria haviam antigamente usado de privilégios especiais, por terem urma acção fulcral na protecção de pessoas e bens contra as inundações.

Maioral, guardador de gado no campo ou na charneca, pastar no léxico de alguns, campino de quando em quando. Herói do descampa­do, dono da solidão. Na grandeza invernosa da planura, quando na Le­zíria cessa todo o estivaI formigueiro humano, só ele e os bichos. Nem    sombra de gente para desenferrujar a língua.

Veste-se hoje à paisana - na sua fala expressiva - isto é, de chapéu à marzantina, no Verão, ou de barreto preto, na época do frio.

O suceder dos tempos fez-lhe ir perdendo todos os atractivos do seu funcional trajar - sapato com salto de prateleira adaptado à espo­ra, calção ajustado à perna, preso, abaixo do joelho, com  liga de cor e fivela, meia bordada, ou seja, com motivos reIevados, que ele mes­mo confeccionava, de baetão, colete e jaqueta, barrete com carapinha álacre e borla saltitante,  cinta que, antes de ser vermelha foi listada de vistosas cores. No trajo de gala,  a camisa era bordada no peito. Agasalhavam-se com uma manta de lã, às riscas, que às vezes rebuçava à frente, e galopava, pampilho vivaz, montado sobre uma albarda almofadada de pele de ovelha.

Hoje o colorido trajo dos maiorais da Borda-d'Água, despessolizado, só já se observa nos cortejos festivos ou nas paradas reluzentes.

Confrange ver as artísticas meias bordadas, que as pernas nervosas e ágeis dos campinos de ontem 'ostentavam, substituidas pelos arremedos bastardos das meias arrendadas de hoje. O certo é, porém, que todos os maiorais desdenham agora executá-las e raras são já também as mãos femininas que saibam entretecer tais lavores,

A MECANIZAÇÃO DA AGRICULTURA

A mecanização da agricultura, que libertou os homens e lhes amenizou o trabalho, provocou o desprezo pela alfaia tradicional, símbolo muitas vezes de servidão e miséria. è tão-só este desprezo que se lastima; não, é evidente, a sobreposição de técnicas esforçadas por outras mais produtivos e menos escravizantes. O património cultural rural, incluindo o linguístico, restará fatalmente empobrecido pelo desuso de muitas técnicas e objectos. Fica-lhe saber compensar-se, com a adopção de novos objectos e de novas técnicas, e recolher, estudar e divulgar o que ao passado pertenceu.    "

TELHAIS, SALINAS

O "fermoso Tejo", por vezes túrbido, por vezes claro e ameno, foi­-se desdobrando nas margens por alguns canais, esteiros chamados, junto dos quais o tempo trouxe e levou, e outra vez trouxe um cordão fabril de grande relevância.

o fabrico da telha e tijolo roi umu dessas indústrias, sendo particu­larmente activos os telhais de Alhandra, onde cm 1940 existiam cinco fábricas.   

Uma noticia avulsa contida num do livros de óbitos da freguesia de Alhandra patenteia que, em 29 de Junho de 1713, "no telhal de João Rodrigues" um certo homem telheiro" faleceu e nesse dia se sepultara, no adro da Igreja.

Monsenhor Ferreira Gordo, académico alhandrense muito respeitado, deixou lavrado, em manuscrito que datou de 1794 e intitulou memórias da Vida de Alhandra, que "o trato mais ordinário dos seus mor'adores é fabricar telha e tijolo, pescar no Tejo e lavrar as ferteis campinas das lezírias.

Decorrido quase um século, o escritor Salvador Marques, também natural da vila de Alhandra, aduz que " a indústria principal da vila é o fabrico da telha e tijolo que se manipulam nas seis fábricas que existem à beira-rio", acrescentando ainda que nos telhais se empregava gente da terra e outra de fora, gaibéus e malteses.      

A referência feita nas Memórias Paroquiais  de 1758 às fábricas de telha e tijolo de Povos aparece, nos dias de hoje, tão longinqua e fabulosa como a narrativa de alguns idosos vila-franquenses sobre o telhal do Esteiro do Nogueira, que produzia tijolo de cor clara, por não serem utilizados os lodos do rio, tubos para drenagem e outra cerâmica usada na construção.

Todavia, já o foral manuelino de Vila Franca, outorgado "na nobre e sempre leal Vila de Santarém" no primeiro dia de Junho de 1510, estabelece o tributo a cobrar sobre " a telha e o tijolo que se fizer na dita vila, de que se pagaria a dízima, com a alcavala de 3 reis por carga maior, isto é, de besta muar ou cavalar, ou dez réis por milheiro, no caso de entrada ou saída de cerâmica por terra ou por mar.

Nos telhais, " que roubam nateiro às águas e vigores à malta", os rendeiros coagem os adolescentes a pisar com os pés descalços o brasido do forno ou a crestar os ombros com os tijolos fumejantes.

 SALINAS

Nos braços de maior profundidade e extensão, possibilitou o Tejo, num e noutro lado das paredes fluviais, a indústria salineira, cuja produção é cerca de metade da produção nacional.

Lendo o Podre Luís Cardoso, se infere que em Alverca se lavrava sal em duas salinas, e já Manuel Severino de Faria notava que a Póvoa era fértil em marinhas, "de que todo esta ribeira do Tejo está lavrada, posto que estão ainda muitos salgados que el-rei como direito senhorio que é das terras que cobre o mar pudera dar, e aforar em       desempenho de suas rendas".

A indústria do sal na margem direita do Tejo, com excepção para Sacavém, foi decaindo progressivamente até ao Século XIX e já nos finais do mesmo século as principais marinhas tejadas se situavam ao sul do rio Alcochete, Aldeia-Galega, Moita e Alhos Vedros.

PESCADO

O peixe era um dos principais meios de alimentação popular, sendo a sardinha a espécie privilegiada.

O foral de Vila Franca, como de qualquer outro Concelho, provendo ao arrecadar das rendas e direitos reais, mais que nos de seus vizinhos e moradores, foi relacionado os produtos enquanto os tributava. E deste modo se colhe que as espécies prevalescentes nas redes dos pescadores seriam a sável, o camarão e outro marisco, além "do pescado que se mata em covão, nassa ou anzol".

O atento clérico da Sé de Evora, não deixou de reparar na excelên­cia dos camarões de Vila Franca "tanto que a sua bondade anda aí em provérbio".

O anónimo autor da Discription de la Ville de Lisbonne fica atónito com a abundância de sardinhas frescas do Tejo e com o seu baixíssimo preço.

O Padre João Baptista de Castro não se cansa de  elogiar as "gabadas azevias de Alhandra, os safios, eirozes, cachuchos e garozes do Tejo e "os celebrados camarões de Vila Franca".

O autor do Livro das Grandezas de Lisboa, pasmado com a "grande multidão de sáveis que o rio fornecia, diz:

"Muitos e mui grandes linguados, imponentes azevias (peixe que só neste rio se acha), muito congro. corvina, mugem e grandes tainhas, enxarrocos, peixe mui leve e tanto que se dá a doentes, gostosíssimos pâmpanos, salmonetes, lagostas e lagostins, com mui grande quantidade de camarões grandes e pequenos e outra muita sorte de peixe de menos estima, e muito marisco, de santolas, amêijoas, bribigões, langueirões, ostras, mexilhões e ca­ramujos.

E ao trinitário ocorre que não fizera ainda menção da  "muita sar­dinha que aqui no rio morre, porque, sendo muita em quantidade é mui pouca em comparação da que se traz da Corte, para onde vi (co­mo acima fica dito) sair em uma noite 112 barcos a pescar sardinha".

Nas Memórias Paroquiais de 1758, enumeram-se as espécies que se pescam no rio de Vila Franca: "sáveis, mujes, enguias, barbos, linguados e camarões".

Baldaque da Silva, ao considerar o grande movimento do Porto de Vila Franca, diz que as suas embarcações " explorando o rio em toda a sua bacia hidrográfica que se desenvolve para jozante e no curso menos largo que continua para cima deste ponto ", recolheram no ano económico de 1885 - 1886 pescado no valor de 15 865$60 réis e que em 29 de Abril de 1889, haviam pescadores capturado próximo desta povoação, para além de 2 000 sáveis.

Foi o saboroso sável espécie que mais afamado tornou o rio. O peixe era apreciado, aliás, desde tempo muito antigo. Na peça anónima intitulada Prática de Três Pastores, diz um dos personagens:

            "Há hi cousa mais suavel,

            mais doce e angelical

            do que dormir de continuo ?

He melhor que comer sável."

Gama Barrospublicou uma interessante lei de D. Afonso V, de 1462, sobre as restições impostas às pescarias feitas nas coutadas do Tejo e Zêzere, que especialmente visava proteger a "mui proveitosa novidade e grande pescaria dos sáveis que se fazia no rio Tejo em cada ano em vida dos senhores reis D. João, meu avô, e el-rei, meu senhor e padre, cujas almas tem".

Em várias ocasiões, os processos de pescar e a dimensão das malhas das redes foi sendo um motivo de querelas e múltiplas queixas de al­guns pescadores, o que levava os monarcas a legislarem sobre o assunto. Assim ocorreu com a consulta que a Câmara de Lisboa apre­sentou a D. Pedro II, em 9 de Agosto de 1675, acerca da reclamação que os pescadores da mesma cidade e do Ribatejo haviam apresentado sobre "o irreparável dano que fazem neste rio os pescadores dos chinchorros, arrastado as redes pelas praias de sorte que não somen­te apanham o peixe miúdo que lhes não serve e tornam a lançar morto nas praias, mas ainda as ovas da mesma criação, com que em breves anos se verá este rio sem aquele peixe".­

O cumprimento desta legislação não se fazia sem resistência e sem questionações.

Estas razões, aliadas a algumas outras que Lacerda Lobo, em 1799 perspicazmente enuncia - o desaparecimento do sável, da cavala e da sardinha, que se pescavam no Tejo e Sado em tal abundância que não só alimentava o País como se exportava grande quantidade, o cus­to elevado das artes e barcos, o desapego dos novos por este oficio, acarretaram a decadência das pescarias no País, nomeadamente na Estremadura.

O certo é que os modernos habitantes ribeirinhos da margem direita não fizeram da pesca a sua principal característica, preferindo ocupar-se na lavoura e na pecuária, num usufruir intensivo dos prados humedecidos pelas chuvas, Foi necessário, assim, que profissionais de longe aqui abordassem para aproveitarem o florescente recurso que a vida marítima ofertava.

VARINOS

Os primeiros pescadores estranhos que aqui acostaram vieram da zona da ria de Aveiro, especialmente de Ílhavo, Murtosa, Estarreja, Aveiro e Ovar. Chamaram-Ihes Varinos, mas também  Murtuseiros e Ilhavos. quando chegaram?

Da inacabada investigação sobre o assunto encetada, apenas se pode inferir que: Transportavam-se no Inverno para a beira-rio, penetrando depois pelo seu curso, navegavam até onde podiam e por cá permaneciam até Junho.

 

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