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A Mulher da Vieira

 
A cultura transportada nos barcos da Vieira e sedimentada nos aglo­merados da beira-rio, amassada e condimentada pelos revezes e pela convulsão de costumes diferentes estrebucha ainda na forma de vestir e na linguagem dos mais velhos, indiferentes - eles só - às modas e usos do mundo exigente que as recolheu, com o qual o seu apenas tem de comum a largueza - verde, aqui; azul, lá.

A Avieira legítima, isto é, a mulher nascida na praia de Vieira - de 70 anos bem para cima - e aquela que, nada na Lezíria há 60 e muitos, permanece culturalmente avieira, não admitiu modificação no vestuário, "com exclusão do gracioso chapelinho redondo da primeira". Saia um tanto curta, de riscado garrido ou de flanela escura, conforme as estações, menos rodada que antigamente e sem os dispendiosos favos­-de-mel que, além do mais, ninguém quer ou sabe já executar; blusa de manga comprida em belo padrão de ramagens coloridas, ou mais ou menos engalanada de fitas, rendinhas ou outros enfeites; avental de apetecidas riscas largas ou bordado em tons muito vivos, se liso; lenço vistoso e colocado de modos vários, na cabeça ou sobre os ombros, mas preferentemente atado ao alto, com duas grandes pontas; xaile de lã dos Pirinéus, no inverno, cruzado à frente; quase sempre, mas sobretudo contra o frio, os individualizadores canos “ Meias de lã grossa, executadas à mão, desprovidas de pé e cobrindo a perna até ao artelho “  para  as pernas, as peças com mais carácter do seu vestir.

Calçado nos pés, só em tempos muito recentes e, ainda assim, as mais velhas preferem o desafogo do pé limpo nas andanças domésticas. Na venda, ou nas deslocações para fora das aldeias ou bairros, os sapatos são agora indispensáveis.         

O pé desnudo caracterizou sempre a gente da beira-mar, pois que, independentemente da penosa capacidade financeira dos pescadores, o calçado constituía empecilho incómodo para o imprescindível desembaraço no andar.

Chinela ? Em dia de casamento! Com seu vestido de lã fina, em cor crua, ramo de Laranjeira e veuzinho curto. E ouro, muito ouro, todo o que se tivesse, mesmo à custa dos maiores sacrifícios!

Usava-se, até há umas boas dúzias de anos, um corpete colorido preso à blusa, apertado à frente, para adelgaçar a cintura.

Foi peça que, com o chapéu de feltro e a saia comprida, acabaram por se perder na acomodação à Lezíria; e outro tanto na Praia.

Costumavam também - e fazem-no ainda às vezes no trabalho - atar uma fita ou nastro na anca, por cima da saia e do avental, para os fazer subir, decerto para que a grande roda que tinham não consti­tuísse estorvo na labuta.

O luto reveste-se de esquemas severos, como, aliás, em quase todas as sociedades rurais.   .

Falta mencionar ainda um adereço indispensável na venda - a canas­tra funda ou o cesto, à cabeça;. por dentro um alguidar, para que as escorrências do peixe não viessem macular o vestuário. Este cesto, redondo, sem asas, desactualizou-se e o alguidar, antes de folha, é agora de plástico.

 O Homem da Vieira

 De imaculada camisa imprescindivelmente axadrezada, em tons castanhos ou amarelados de preferência, e não já de pano cru; calça de fazenda ou de cotim, arregaçada, tal como a ceroula interior, ou largas bragas de zuarte antigamente, mas de ganga, hoje; boina de pala curta em vez do barrete de outrora, em geral preto, mas que também fora azul ou vermelho, com ou sem borla; cinto de cabedal ou mero cordão, pela cinta preta de outros tempos; camisolas e casacos de malha ou de tecido grosso a destronarem o gabão de capucha e farto cabeção; pés descalços, sempre. Eis o velho Avieiro, pescador por necessidade e fado livre acima de tudo.

A fala destes anónimos forcados do rio - que eles e elas sabem pegar de caras - “ Respeita isto á geração que conta mais de meio século. As outras tudo desconhecem da actividade piscatória “ enternecidamente semeada de diminutivos, de express­ivas repetições superlativas, de abundantes resíduos vocabulares já desaparecidos do léxico corrente, harmoniosa e musicada, não cabe neste resumo.

 

 

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